
Capriche no “C” maiúsculo. Pronto. Eu, sempre em busca de uma caligrafia melhor!
Estou ensaboado de agitação, despido de tristeza e molhado de poesia. Deve ser o som do Capital Inicial com a nova música Cair da Noite.
Às vezes tenho vontade de ser a lua. Ela é a câmera de Deus que vigia os namorados das cidades do interior em suas pracinhas, nas inocências dos beijos apaixonados de jovens descobrindo o amor.
Deve ser legal poder se ausentar sem que ninguém reclame e, quando retornar, todos aplaudem: românticos, caçadores, apaixonados, poetas, pescadores. Pensando bem, acho que nem todos; acredito que ladrões não gostam da lua; a sua luz pode denunciá-los com os gritos de seus reflexos prateados. Mas, enfim, a maioria das pessoas a aplaudem.
E sabe o que é mais interessante? É que acredito na relação amorosa sol-lua em que, contradizendo poetas, escritores e músicos, Lua é o homem da relação e Sol a mulher. Vou explicar-te:
Tem um ditado que diz que atrás de um grande homem sempre há uma grande mulher, sendo assim, podemos olhar esses dois astros próximos da nossa casa: o brilho que faz a Lua cintilar vem do Sol, a Lua apenas reflete.
E, numa casa, quem é que normalmente sai do lar quando há uma discussão? O homem! A mulher sempre fica firme em seu posto. A Lua sempre arranja uns meios para dar umas duas fugidinhas no mês – àquela safada!
Falando em ficar firme no posto, de quem é a função de gerar vida no mundo? É do gênero feminino. São as mulheres que geram a vida. Em uma família, quem ilumina a casa com ternura é a esposa; que aquece os filhos é a mãe.
Já, por outro lado, é função da Lua “segurar a onda” do lar – neste caso, o planeta – como papel de um pai. Na casa doméstica quem normalmente segura as ondas de uma crise financeira?
Pois é! Assim como eu, por um longo tempo, vocês também foram enganados pelos músicos e poetas – coitados, talvez até eles também se equivocaram ao se declararem para O Lua.
Lua é macho e é a Sol a dama encantadora…
E pensar que eu também já havia me declarado para o Lua – ecaaa!

Cheguei à sala de aula e o Ricardo, meu companheiro de infância, já veio me atormentar com um sorriso maldoso no canto dos lábios:
- E o trabalho de Contaminação Ambiental, maluco? Já fez?
Na hora gelei! Era manhã e a apresentação do trabalho estava marcada para a segunda aula da tarde. Minha única reação foi pegar o pen-drive e correr para a biblioteca enquanto escutava a voz do meu amigo ecoando pelos corredores, tendo como tonalidade uma gargalhada:
- Já vi que não! Ha ha ha!
Desci as escadarias e cheguei ofegante ao balcão do bibliotecário:
- Preciso de um PC com impressora.
Ele, com um olhar assustado, a boca entre aberta e os olhos congelados sem mexer, olhando para mim, apontou com o dedo, em um movimento lento e uniforme, para um computador no fim de um corredor de livros.
Só uma palavra martelava em minha mente: “Ferrou! Ferrou!”. Agora, como sempre, só o titio Google para me salvar.
Encontrei um artigo no site do Estado sobre o tema que procurava, dei uma rápida olhada em algumas palavras e tópicos e mandei para o papel!
Mais tarde, durante o almoço no refeitório, li superficialmente o texto. Quando estava na no meio do texto, com o almoço também meio comido, olho no celular a hora: 15 minutos para a apresentação.
Confiando em minha facilidade de falar, explico meu trabalho com gestos mirabulosos e sempre citando o pensador principal do artigo que encontrei na internet – um tal de Doutor Ferreira.
Como não tinha estudado o conteúdo direito, sigo a gambirenta linha de apresentação de trabalhos, desenvolvida em anos de escola, chamada de “Na doida”, em que se resumia em ler um parágrafo do texto e explicar o que – que praticamente nada – entendi.
Para piorar a tensão emocional, o meu professor mostra-se – excessivamente para o meu gosto – curioso em relação ao trabalho e principalmente sobre as teses do Doutor Ferreira.
Por fim me enrolo em uma das perguntas que o professor me faz, gaguejando e pestanejando, mostrando que definitivamente não estudei. Ele sorri e depois me indaga:
- Percebi que você citou várias vezes esse Dr. Ferreira em seu trabalho. Não consegui conter minha curiosidade em saber mais sobre ele. Por acaso vocês chegaram a conversar?
- Não – respondi – só fiz várias pesquisas sobre ele nesta última semana.
Ele, novamente com aquele maldito sorriso sarcástico de boca fechada, solta a seguinte fala:
- Que pena. Ele é legal. Você iria gostar de conhecê-lo.
- Por quê? – pergunto intrigado.
Calmamente com a mão, ele pega o crachá de professor que está em seu pescoço e mostra a foto com o nome “Dr. André Guimarães Ferreira”. Por fim, mais uma vez com aquele sorriso cortantemente sarcástico que nunca irei esquecer, ele diz:
- Por que ele sou eu. Aí a turma toda cai na gargalhada – inclusive eu e o Dr. Ferreira.

Fiz muitos sermões, dei muitos conselhos. Fui conhecido por criticar com uma boa argumentação vários hábitos alheios. Algumas pessoas vinham ao meu encontro pedir opiniões sobre seus problemas e, com certa criatividade, eu sempre conseguia apresentar-lhes soluções até razoáveis. Fui encantado pelo reconhecimento intelectual; bebi deste doce e permiti-me ser guiado pelo vício da fama.
Por alguma variável desconhecida, não regredi nas qualidades de meus conselhos, pensamentos e opiniões, pelo contrário, consegui – com a prática – aperfeiçoá-los.
Nesta dança da fama, acabei me deixando deliciar pelos passos do elogio, desfrutando de alguns de seus benefícios. Com o tempo, o pensamento do “permitir uma exceção” foi tornando-se cada vez mais frequente.
As exceções foram se tornando práticas raras, as práticas raras em hábitos rotineiros, dos hábitos, um modo de vida.
Lógico que maus hábitos trazem questionamentos das pessoas externas. Pelo fato de eu ter certa habilidade em processar as coisas ao meu redor, conseguia compor um impecável montante de mentiras. Mentiras muito bem estruturadas e detalhadas, feitas para evitar o máximo possível de futuras perguntas.
Assim, minha vida foi seguindo. Com maus hábitos e práticas, seguidas de exímias mentiras – falsas verdades muito bem compostas.
Um dia, passeando por uma conversa filosófica, encontro no caminho um espelho; e como todo seguidor leal de Narciso o espelho é como ópio, me direcionei à imagem que reproduzia meu orgulho.
Quando vi meu reflexo, fiquei atordoadamente chocado: vi um homem velho, vestido e adornado como um menino escravo dos anseios sociais.
Passei a praticar o que mais tinha criticado em vida. Vivia em um dualismo digno de modelo para Demósteles Torres. Maus atos que mais ofendiam o meu discurso que a própria moral social.
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Dias depois, me vejo em frente a decisões difíceis que exigiam muito de meu “impecável” intelecto. A transição veio como resultado destas dúvidas.
Quando estava para partir, girarei para trás para pegar minhas malas e vi o caminho que percorri: um campo de árvores cortadas com mentiras, uma mata envenenada por atos. Cheirava a fumaça e poeira, com preto e amarelo-queimado como cores predominantes.
Deixei esta estrada queimada para trás, como um covarde consciente, sabendo que em baixo das cinzas havia sementes que ainda poderiam brotar, restaurando, com o tempo, a mata envenenada e queimada.
Desta forma, hoje vejo minhas mentiras sendo descobertas sendo descobertas e me alegro com isto. Quando se olham em baixo das cinzas em busca de pistas do culpado da queimada – e acabam encontrando pegadas minhas – também retiram camadas de cinzas, facilitando assim sementes esperançosas germinarem e formarem uma nova floresta, com uma vasta diversidade de vida.
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Como a caligrafia, um hábito precisa de bastante prática para que melhore. É aqui que me encontro: mais lúcido em meus atos, escrevendo com nova caligrafia uma parte da minha vida, fazendo o possível para que fique cada vez mais bonita e legível a mim, a Deus e aos que comigo convivem e acabam por também lerem minha história.

Enfim, tudo tão claro:
Eu chegando em você
Você com põe os braços em mim
A BR, com as luzes dos carros cintilando
Deito no chão gramado verde
Apago.
Abro meus olhos
Você em cima de mim
Ganhou mais uma de nossas lutas!
Seus cabelos pretos escondendo o rosto pálido
Te viro em um golpe inesperado:
Ganhei.
Desço as escadas
Caminho para aquela palmeira iluminada
Circundada por pisca-piscas
Retiro uma fagulha
Demonstro sua física
Era natal,
Não esqueço
Voltamos correndo,
Subindo o morro asfaltado
Ganhei a corrida, se não me esqueço
Os cachorros na noite se reunindo
Ao som de nossos risos
Ao cochicho de nossos segredos
Sobre estes, eu errei, me arrependo.
Não sei se entenderá
Não consigo mais pensar
O motivo por continuar
Com você a conversar
Se está a me ignorar
Vi mudanças em ti
Também houve mudanças em mim
Deixei de ser cruel
Deixei de ser infalível
O garotinho de paraíso
Tornou-se agora um esquilo amadurecido
O barzinho com o vinho ainda está de pé
Embora seja apenas a esperança de ganhar
Num bingo completo
De divertimento incerto
Um chaveiro marrom,
Para brincar, rir
Iluminar, discutir
Conversar…
E na calçada… despedir.
Então, nesta enumeração
Com experiências nossas, a narradas por mim
Te dedico uma última oração
Adeus, adeus, minha querida pinguim.
Pena ter sido tudo tão caro,
Mas agora, tudo tão claro.
Enfim, tudo tão claro.
Texto feito sobre a prática de textos Enumerdados, segundo o livro de redação “Redação Livre”. Espero que gostem

Semana passada, meu avô deu uma “volta” por entre os parentes da família. Visitou meus tios em Brasília, rodou por Palmas e Paraíso, ambas no Tocantins. Conseguiu conversar com todos os filhos e, consequentemente, com os netos – menos eu: encontrava-me em Goiânia.
No dia 20 de Abril, matei um porco para a minha casa no seminário onde eu moro. Enquanto executava os procedimentos, vinham grandes relâmpagos de memória que espalhavam lampejos do rosto dele pela minha cabeça. Lembrei-me muito dele.
Mais tarde, enquanto estive dormindo, tive um sonho:
Ele veio me visitar no seminário. Eu estava de frente ao computador. Dei-lhe um abraço longo e preguiçoso e ele sentou ao meu lado. Perguntou-me:
- Você consegue achar uma música para, aí?
- Uai, posso tentar – respondi com um sorriso.
- Procure: ‘Avô e o neto’, da dupla André e Andrade.
Procurei e, com muita dificuldade, encontrei um vídeo na internet. Escutamos jutos.
Menino você está vindo,
no caminho que passei.
Por eu ser muito mais velho
vou lhe dar um conselho:
“Cada ano é um quilômetro,
Pode andar devagarinho.
Cuidado com os abismos na beira do seu caminho.
Lá na curva dos cinquenta, um pouco mais da metade…
Você vai sentir cansaço,
dor nas pernas e nos braços,
Com o peso da idade.
Menino por essa estrada tem passagem tem barreira;
Tem porta e tem atalho e tem subida e tem ladeira.
Tem buraco e tem espinho, muitas curvas perigosas.
Tem tocaia e armadinha e muitas cobras venenosas.
Tem bastante encruzilhadas, você vai ver um sinal.
Você vai sempre à direita,
A estrada mais estreita.
Vai mais longe o seu final.
Menino foi nessa estrada que passei levando a vida,
Tem porta que tem entrada mas não se encontra a saída.
Depois dos sessenta anos, ficou muito chão pra trás.
Você olha para frente, esperanças não têm mais.
Tem a cidade dos mortos, o lugar é um mistério.
Nessa estrada, quase ninguém,
Chega na placa dos cem.
Sem morar no cemitério.
Terminamos de ouvir a música juntos, ele me olhou com um olhar de quem vê um filhotinho de cachorro latindo. Um olhar de cuidado e carinho. Colocou a mão em meu ombro e disse:
- Este é o meu testamento que deixo para você.
Acordo com lágrimas nos olhos. Olho para o lado, só enxergo a lua me espiando pela janela do quarto escuro do seminário.
Na manhã seguinte, continuo a minha rotina tranquilamente. Pela noite houve uma janta motivada por pizzas caseiras feitas pelas mãos abençoadas da Dona Ana. Vou ao quarto ler. Minutos depois o Pe. Bosco me fala:
- Sua mãe acabou de ligar. Seu avô faleceu.
Não percebo nada na hora, tinha me esquecido do sonho. Apenas na viagem de Goiânia à Paraíso que percebo o acontecido.
Vovô, não tenho muito o que falar. Você foi e sempre será meu modelo de homem honrado. Conseguiu mostrar a alegria por meio dos gestos e palavras. Conseguiu fazer milagres como ser puxa-saco dos genros e fazer com que eles também fossem de você. Fiz prodígios como transportar um porco vivo de uma fazenda à outra de moto. Consegui fazer com que uma multidão sentisse um pesar no coração quando soube de sua partida.
Antes que as lágrimas queimem o teclado do computador, deixo essa deixa:
Vovô, te amo. Sua maior herança sempre ficará em minha memória, em minhas palavras, em minhas decisões e em meus atos. Você é o patriarca de uma família honrada. Você é modelo de seguidor de Cristo. Você é… meu vovô.